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Críticas do Filme “O Senhor das Armas”

16/11/2009 21:12

DIABO SEDUTOR É O SENHOR DAS ARMAS

O que surpreende no filme O Senhor das Armas é a irreverência, o cinismo e humor negro em relação a um assunto tão delicado como o comércio internacional de armas em suas duas facetas, legal e contrabando. Mesmo com vários clichês do gênero ação e aventura, o filme é significativo e tem tomadas em locações adequadas na República Tcheca e África do Sul e New York

Essa produção independente foi realizada pelo diretor e roteirista neozelandês Andrew Niccol. Segundo ele, não foi fácil obter o financiamento de 42 milhões para um filme que contém crítica aos EUA e aos demais membros com direito a veto no Conselho de Segurança ONU, que por sua vez também são os maiores exportadores de armas. Porém, business is business, se há público para Michael Moore, um filme com Nicholas Cage, que também é sócio na produção, deve faturar alto.

Niccol baseou-se em cinco traficantes de armas para compor o personagem Yuri Orlov (Nicholas Cage), o que resultou em passaportes de diversas nacionalidades e personalidade ambígua, uma fórmula garantida de bilheteria.

Orlov é tão legítimo quanto whisky paraguaio. Sua família usou de falsa identidade judaica na migração da Ucrania para os Estados Unidos; só pai vestiu a fantasia e converteu-se de verdade. Pobre, ambicioso e ávido de rápida ascensão, Orlov ingressou no negócio das armas nos anos 80. Cínico e canalha, trilhou rapidamente tanto os meandros da corrupção quanto os da legislação internacional sobre o comércio de armas, a qual conhece tão bem quanto o seu arquiinimigo, o incorruptível agente da Interpol, Jack Valentine (Ethan Hawke). Orlov considera que apenas vende mercadorias e não é responsável pelo uso que delas fazem.

No tráfico de armas, o concorrente de Orlov é Simeon Weisz (Ian Holm). Cara-a-cara, Weisz diz a Orlov: “Estou no negócio de mudar governos”. A diferença entre os dois é que Weisz vende armas somente para um dos lados; Orlov vende para os dois lados em conflito e para quem mais desejar. Na comparação, Orlov afirma: “Há quem prefira o branco ou o preto. Eu prefiro o cinza”.

Fora dos negócios, Orlov é um diabo sedutor, fascinado pela modelo Ava Fontaine (Bridget Moynahan), também ucraniana. Desejada de longa data, cantada com muitos dólares, Ava converte-se em esposa fiel e mãe do seu herdeiro; a família é tratada carinhosamente por ele, que vive com a família num luxuoso edifício em frente do Central Park, em um dos pontos mais caros de New York. Ava faz vistas grossas às atividades ilegais do marido, que diz trabalhar com “transportes internacionais”. Depois de muito tempo, Ava percebe movimentos estranhos em torno do prédio e recebe a visita do agente Valentine.

Outro ponto de contraste é Vitaly, irmão de Orlov. Como no tráfico qualquer deslize pode ser fatal, Orlov converte o irmão em seu braço direito, mas Vitaly não tem estomago para suportar as falcatruas e acaba sucumbindo sob o peso da cocaína. Orlov o protege, interna num sanatório e, apesar dos dramas de consciência, ambos preservam o amor fraternal.

O filme desenrola-se sob o ponto de vista de Orlov, que inicia dizendo diretamente para a câmera: “Um em cada doze habitantes do planeta possui uma arma. O que podemos fazer para vender aos outros 11?” Daí em diante, as conexões entre as partes são por ele narradas em OFF.  No final, ele narra diretamente para Jack Valentine, o incorruptível inspetor da Interpol que o captura depois de muitas peripécias, o que acontecerá após sua detenção.

Referências Históricas

O Caso Irã - Contras - Orlov, num momento de apuro, faz uma ligação para o coronel norte-americano Oliver Southern, uma alusão com trocadilho geográfico ao nome do tenente Oliver North, personagem do caso Irã - Contras, ocorrido no governo de Ronald Reagan, nos anos 80.

Esse escândalo foi motivado por membros do Conselho Nacional de Segurança dos EUA, tendo como pivô o tenente Oliver North, testa-de-ferro que comprava armas de Israel e vendia à República Islâmica do Irã, então em guerra com o Iraque de Saddham Hussein, pela disputa do território onde se fundem os rios Tigre e Eufrates. Os lucros obtidos eram destinados ao financiamento dos contra-revolucionários da Nicarágua, que lutavam contra o governo socialista dos revolucionários sandinistas. O Senado dos EUA abriu uma investigação em 1986, mas não conseguiu provar o envolvimento do presidente Ronald Reagan. Considerados culpados, Oliver North e seu sócio Poindexter foram absolvidos em recurso posterior. O escândalo acabou em pizza.

A Dissolução da União Soviética - É hilária a cena em que Orlov beija a tela da TV, enquanto o primeiro ministro Mikhail Gorbatchev anuncia a dissolução da União Soviética (1991). A sua percepção do caos que se instalaria e do quanto poderia ganhar com o final da Guerra Fria é verossímel em relação a qualquer um dos traficantes pesquisados. Segundo Andrew Niccol “todos aqueles tanques (que aparecem no filme) pertencem a um negociante privado de armas tcheco. Ele disse que eu os podia usar, mas queria de volta, pois estava vendendo em seguida para a Líbia”.

Durante a Guerra Fria (1945-1991), Estados Unidos e União Soviética criaram rivalidades irreconciliáveis entre grupos guerrilheiros e governos em todo o planeta, especialmente na África, que é destacada no filme. Uma vez encerrado o conflito entre as duas superpotências, a disputa pelo poder entre os grupos rivais não cessou. Para essa continuidade, a mina de ouro foi o desmantelamento do arsenal da URSS distribuído entre as antigas repúblicas soviéticas que, uma vez independentes, liquidaram os armamentos ao bel prazer dos generais comandantes. O fato estendeu-se também às empresas estatais, que foram saqueadas e privatizadas em proveito dos que ocupavam postos chaves na ocasião; para “assegurar” os negócios nasceram as máfias russas, que rapidamente ramificaram suas atividades. Por extensão, a mesma coisa ocorreu no Leste europeu com a extinção do Pacto de Varsóvia e o desmoronamento dos regimes socialistas da Polônia, Tchecoslováquia, Hungria, Romênia, Bulgária e a decomposição da Iugoslávia.

Trilha e pontuação sonora bem humoradas

Na trilha sonora, durante uma exposição de armas e aviões de guerra em clima fashion, na qual scort girls em trajes sumários passeiam armadas em cima das aeronaves, toca Cavalgada das Valquírias de Wagner, uma das preferidas de Adolf Hitler, também utilizada como trilha do antológico ataque aéreo com bombas de napalm a uma aldeia no Vietnã, em Apocalipse Now! de Francis Ford Coppola. Em geral, as frases ditas por Orlov na narração são ironicamente pontuadas pelo tilintar de uma máquina registradora, o que remete à música Money, do Pink Floyd. É impossível segurar o riso quando Vitaly cheira coca e sobe o volume de Cocaine, com Eric Clapton.

João Bonturi

 

FONTE: http://blogdojoao.blog.lemonde.fr/2005/10/31/2005_10__o_que_surpreen/ Acesso em 22/10/2009

 

 

“O SENHOR DAS ARMAS” E A LÓGICA DESTRUTIVA DA ORDEM DO CAPITAL

A câmera acompanha o percurso de um projétil. Não aquele previsto pela balística, a ciência que se ocupa da trajetória da munição disparada pelas armas de fogo. É um olhar atento para a totalidade das relações sociais que antecedem a rajada derradeira, envolvendo a produção, distribuição, circulação e consumo em regiões (e situações) tão distantes entre si quanto os EUA, o Oriente Médio, a África Ocidental, o Leste Europeu e a América Latina. A bala em questão aloja-se, ao fim do percurso, no crânio de uma criança negra. Esta é uma das seqüências – o “ciclo de vida” de uma bala de um rifle soviético 7.62x39mm – que dá início ao filme “O Senhor das Armas” (1 ), protagonizado pelo norte-americano Nicolas Cage (“Despedida em Las Vegas”) e dirigido e roteirizado pelo neozelandês Andrew Niccol (“O Show de Truman”), em cartaz no circuito nacional.

O recurso à elipse narrativa – que condensa os principais aspectos de um argumento em poucos segundos de projeção visual – introduz o espectador, logo de entrada, no universo da indústria bélica. Em uma rua inteiramente coberta por balas dos mais diversos calibres, Yuri Orlov (Cage) logo dispara dados, estatísticas e cifras sobre o ramo da economia capitalista no qual atua. “Existem mais de 550 milhões de armas de fogo em circulação no mundo. Isso significa uma arma para cada 12 pessoas. A única pergunta é: como armar as outras 11?”, diz o personagem, o próprio retrato do anti-herói, sem demonstrar qualquer traço de consternação moral.

Yuri Orlov: do bairro imigrante ao tráfico internacional

A narração em off é feita pelo próprio Yuri Orlov – traficante de armas de origem ucraniana que imigra, ainda na infância, para os EUA –, que desta forma garante a epopéia do personagem, ou seja, a apresentação de sua origem, suas principais motivações e a evolução da trama. Baseado em entrevistas de cinco grandes traficantes internacionais de armas, o personagem de Cage – criado na comunidade imigrante de Little Odessa, em Nova Iorque – sintetiza a personificação histórica do capitalismo contemporâneo, numa de suas facetas mais cruas, duras e desnudas possíveis. Longe de se perder submergido em obscuros fluxos de consciência – função usualmente cumprida pela narração onisciente em roteiros mal-estruturados – os comentários do traficante emprestam textura e cores à análise do mercado mundial de armas. A acuidade da pesquisa de campo, as entrevistas e o notável distanciamento crítico dos realizadores não impedem que a sátira ferina transforme esta tragédia real numa farsa bem representada nas telas.

As coordenadas históricas que compreendem a queda da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (ex-URSS) e o fim do que se chamava “Guerra Fria” – que polarizou o mundo em zonas sob influência de Moscou e Washington – constituem o signo fundamental a atravessar os argumentos retratados na película. A família Orlov deixa a Ucrânia, ainda sob controle da burocracia moscovita, reivindicando asilo político em função da pretensa ascendência judaica. Ainda sustentando a falsa identidade, abrem um restaurante tradicional (“koscher”) em Brighton Beach, Nova Iorque, no qual trabalham os dois filhos da família, Yuri e Vitaly Orlov (Jared Leto). Sem perspectivas para realizar suas ambições financeiras e amorosas – já que nutre paixão platônica pela modelo e também ucraniana Ava Fontaine (Bridget Moynahan) –, relativamente habituado aos níveis de clandestinidade que se exigem de qualquer trabalhador imigrante em países imperialistas e às voltas com a máfia russa em sua vizinhança, decide-se pelo tráfico de armas. Que Hollywood tenha exigido ao roteiro de Niccol uma solução narrativa em forma de epifania – do grego epiphanei, aparição ou manifestação divina – não é qualquer novidade. Desta forma, enquanto testemunha um tiroteio entre gangues rivais no restaurante vizinho, Yuri – em interessante interpretação de Cage – é acometido por uma “revelação” que interrompe o fluxo de continuidade e muda o rumo de sua vida: “As pessoas entram no negócio de restaurantes porque, afinal, todos têm que comer. Naquele dia descobri que meu destino repousava no atendimento de outra necessidade humana elementar: a de matar”. Quando já se iniciara no comércio, recruta o jovem Vitaly, ironicamente chamado “irmão de armas”, para expandir o negócio em nível mundial.

A “velha” e a “nova” ordem

A corrida armamentista que precedeu a queda do Muro de Berlim e a extinção da ex-URSS deu lugar ao que muitos consideram o maior assalto do final do século XX. O enorme e subitamente disponível arsenal de morteiros, rifles e mísseis – além de canhões, helicópteros e tanques – foi negociado entre militares soviéticos, traficantes e facínoras de diversas estirpes, tendo como destino principal a África Subsaariana, assolada por incontáveis conflitos armados – como os da Libéria, Serra Leoa e tantos outros – e quase permanentes guerras civis. Somente na Ucrânia, entre 1982 e 1992, mais de US$ 32 bilhões em armas foram ilegalmente vendidas sem que tenha havido sequer uma prisão ou processo judicial. Em um de seus muitos comentários cinícos, Orlov diz que “depois da vodca, do caviar e dos romancistas suicidas; o maior produto de exportação russo é o rifle de assalto AK-47”. A riqueza de detalhes operacionais, logísticos e técnicos do tráfico internacional faz com que o ponto de vista daqueles que mediam o comércio de armas – na zona de penumbra intencionalmente sustentada pelo mercado mundial, entre a legalidade e a clandestinidade – seja adotado pelas lentes de Niccol e, inevitavelmente, pelos incomodados olhos do espectador. As práticas de criptografar códigos, forjar múltiplas identidades, manter diversas bases de operação, burlar a burocracia, subornar oficiais e, por exemplo, transformar helicópteros de guerra em veículos de supostas missões humanitárias, são amplamente exploradas.

Quando ainda era um verdadeiro iniciante (e amateaur) no negócio de armas, Yuri e seu irmão caçula vão à Feira Mundial de Armas, na Berlim de 1983, para encontrar Simeon Weisz – interpretado pelo veterano Ian Holm (o tio de Frodo, em “Senhor dos Anéis”) – o verdadeiro papa do comércio de armas do período anterior ao fim da Guerra Fria. Segundo Orlov, a maior parte do negócio nos anos 80 – um “clube fechado, com um presidente vitalício” – era feita entre os governos dos países diretamente envolvidos nos conflitos. Ao aproximar-se, propondo-lhe um novo negócio, Orlov ouve de Weisz: “Eu não acho que estamos no mesmo ramo. Você acha que eu só vendo armas? Não, eu tomo posição. Balas mudam governos mais rapidamente que votos. Você está no lugar errado, meu jovem amigo”. Quando já se encontrava a alguns passos de distância, Orlov dispara: “Mas e a guerra Irã-Iraque? Você vendeu armas para os dois lados”. Ao que Weisz, visivelmente irritado, retruca: “Nunca lhe ocorreuque às vezes é melhor que nenhum lado vença?”.

Weisz representa a decadência da Ordem de Ialta – polarizada entre países pró-EUA e pró-URSS – enquanto Orlov trata-se da concepção estética mais acabada que o suposto “capitalismo triunfante” faz de si mesmo após a queda do Muro de Berlim. Os anos de 1989 a 1992 são efusivamente comemorados por Orlov, já casado com sua musa inspiradora – a qual envolvera em mais um véu de mentiras, levando-a finalmente ao altar – e pai de família residente em luxuoso apartamento nova-iorquino, com vista para o Central Park. Vende submetralhadoras israelenses – a famigerada automática Uzi – a grupos islâmicos e rifles soviéticos a regimes fascistas, sem qualquer contradição ideológica. Teria a História chegado ao seu fim? Em um episódio emblemático, Orlov acabara de selar a compra de todo um lote de armas leves da Ucrânia, com a ajuda e consentimento de um general (seu tio Dimitri), quando Weisz chega: “Suponho que esteja atrasado”, diz Orlov.

“Senhor das Armas” e a lógica destrutiva da Ordem do Capital

O teor da trama de “Senhor das Armas” configura-se como uma reflexão crítica sobre o Capital em uma de suas engrenagens de funcionamento mais contraditório: a indústria bélica. Não tendo limites inexoráveis em sua tendência à expansão – a não ser a luta de classes, viva e real, e a própria natureza –, o sistema capitalista torna-se quase incontrolável. O espectro da barbárie capitalista, já possível de vislumbrar enquanto possibilidade histórica real, desenha-se através das tendências expansionistas, destrutivas e, no limite, incontroláveis da Ordem do Capital, que convergem cada vez mais na forma de uma crise estrutural do sistema capitalista. Como compreender a forma de existência histórica assumida pelo sistema capitalista – que faz coincidirem no tempo crises econômicas crônicas, acirradas disputas por mercados e guerras neocoloniais como braço armado da mundialização – senão lançando mão do conceito de imperialismo de Lenin, como novo marco epocale e estágio decadente da ordenação capitalista?

A lógica imperialista, largamente intensificada, determina o processo de mundialização em curso. Trata-se da lógica imanente dos grandes monopólios – a bestial concentração de poder tecnológico, militar e diplomático; a acumulação de riquezas sociais e capital financeiro em poucas mãos e países –, que perpetua e aprofunda a miséria social que devasta povos inteiros da África, Oriente Médio, Ásia e América Latina. É esta mesma lógica que faz das guerras e da indústria bélica um lócus privilegiado de reprodução ampliada da Ordem do Capital. A necessária (e lucrativa) destruição de forças produtivas em larga escala assume, então, a forma de guerras, crises e contra-revoluções.

Ao capitalista individual lhe é indiferente se produz, distribui, troca ou comercializa produtos para curar vidas ou para tirá-las. Das conseqüências sociais indiretas da produção capitalista, mais ou menos remotas, só lhe preocupa (ao capitalista individual) os resultados mais imediatos e palpáveis de suas práticas. Pior ainda; inclusive esta mesma utilidade – o “valor-de-uso”, utilidade social da mercadoria produzida ou trocada – passa por completo para o segundo plano, emergindo como único incentivo o lucro obtido da venda, o “valor-de-troca”. Quando um capitalista – industrial ou comercial; legal, semi-legal ou clandestino – vende a mercadoria produzida ou comprada pelo mesmo e obtém daí seu lucro habitual (sempre o máximo possível, independentemente das condições impostas), dá-se por satisfeito e não lhe interessa o mais minimamente o que possa vir a ocorrer depois com esta mesma mercadoria, ou mesmo com seu comprador. A analogia justifica-se ainda por outro filme em cartaz – “O Jardineiro Fiel” –, que versa sobre “o mundo obscuro das multinacionais farmacêuticas (...) com tremendos recursos e poder econômico ... que não pensam duas vezes antes de testar drogas novas nas miseráveis populações do terceiro mundo”, nas palavras de Kirk Honeycutt (Hollywood Reporter). Só isto já valeria um paralelo – muito pouco explorado pela crítica especializada, diga-se de passagem – com a tão festejada adaptação literária do diretor brasileiro Fernando Meirelles.

Os limites da visão do capital

Apesar de sua aparente criticidade, aí começam a se esboçar os limites e a natureza do filme em si. Toda a crítica concentra-se, prioritariamente, num apelo moral ao comércio ilegal de armas que assola o mundo. A crítica ao capitalista individual – enquanto entidade atomizada e a-histórica – impede que, ao final, a trajetória apresentada inverta o percurso inicialmente esboçado pela mesma bala do rifle 7.62x39mm, a menor unidade da indústria bélica, chegando ao ponto de partida da qual iniciara seu itinerário: a produção. Ao sistema de troca e comercialização antecede uma determinada forma ou modo social de produção – largamente “legítimo”, “legal” e apoiado no Estado –, sobre o qual um pequeno punhado de conglomerados tecnológico-militares detém o mais absoluto monopólio. E esta “legalidade” nada mais é do que a infra-estrutura material que dá suporte ao amplamente “regularizado” – através de regras e normas de conduta, escritas e não-escritas – comércio de armas internacional.

Daí que resvale num pacifismo liberal e abstrato, igualando a assimétrica luta de opressores e oprimidos, diluindo antagonismos e mitigando contradições. Trata-se, na verdade, da própria visão social de mundo burguesa. Mais precisamente o capital europeu – que financiou o projeto, da filmagem à distribuição – em suas adstritas diferenças com o imperialismo norte-americano. A violência de tanques de última geração, bulldozers e caças-aéreos do Estado israelense – a segunda potência militar do planeta – não pode ser comparada à resistência de palestinos – pedras, fundas e velhas baionetas à mão – quando estes lutam pela defesa da libertação de seu povo.

Trata-se, em última instância, da linha de menor resistência ao Capital. Não se opondo à extração, acumulação e concentração de mais-valia – quantum social de trabalho excedente expropriado pelos proprietários dos meios fundamentais de produção – da classe-que-vive-do-próprio-trabalho, mantém-se intocada a constituição histórica e estrutural da valorização do Capital lastreada centralmente na exploração material do Trabalho e, subseqüentemente, dos trabalhadores. Desta forma, não como há como questionar de forma conseqüente a indústria bélica. Reaver o controle e o domínio da maioria da população sobre a produção social não se trata exclusivamente de se apropriar de um conhecimento mas, para além dissso, é necessária uma revolução social que transforme por completo o modo de produção existente e, com este, a ordem social vigente.

Yuri Orlov: contradição em processo

Simultaneamente atraída pela impetuosa interpretação de Nicolas Cage e repelida pelo realismo da crítica de Niccol, as imprensas nacional e internacional orbitaram ao redor da forma social de consciência apresentada pela tortuosa mente do traficante Orlov, ou seja, a forma como concebia suas próprias práticas. A personalidade do traficante – esteticização da existência baseada em personagens reais do tráfico de armas – trata-se do aspecto mais impressionista do filme. O brilhante objeto de arte que constitui o cartaz do filme – quadro do busto de Orlov que, à proximidade, revela-se constituído tão-somente de balas e rifles de diferentes calibres – já indicaria de forma alusiva, se preciso fosse, que a indidualidade de Orlov não se trata de aspecto fundante da presente proposta de trabalho. Ainda assim os adjetivos (tanto para a interpretação de Cage quanto para a caracterização do personagem) abundaram: soberba, garbo, indiferença e galhardia. O diretor mesmo chamou-o “diabo charmoso”, portador de códigos morais e padrões éticos diferenciados, capaz de vender armas para ditadores em alguns dos países mais pobres do globo – teria vendido inclusive para o afegão Osama bin Laden, como fizeram as classes dirigentes dos EUA, “mas seus cheques viviam voltando” – ao mesmo tempo que não quer ver seu filho com uma pistola de brinquedo.

O conflito de consciência – concebido como algo que se sintetiza a si mesmo – é consubstanciado pelo irmão caçula, pela esposa Ava – para a qual Orlov mente sistematicamente sobre a origem de seus rendimentos – e, em menor medida, por Jack Valentine (Ethan Hawke), um incansável agente da Interpol constantemente em seu encalço. Os rompantes morais de Vitaly irão levá-lo ao colapso físico e psíquico – entorpecentes incluídos –; a ostentação material de Ava encontrará rédeas (não tão) curtas num dilema familiar de difícil solução – chegando ao impasse – e, por fim, a perseguição jurídico-policial de Valentine levará nosso (anti) herói à prisão. O auge de sua exasperante condição dá-se quando é obrigado por seu maior cliente – o maníaco ditador liberiano André Baptiste (Eamonn Walker) – a disparar o gatilho, com seus próprios dedos, sobre seu principal adversário: Weisz. A subjetividade fragmentada, desterritorializada e volatilizada de Orlov – reflexo mais acabado do processo de produção internacional do próprio capitalismo contemporâneo – já não se encontra mais em harmonia com a ambiência que a circunda. Neste momento, Orlov consome “brown-brown”, uma mistura de cocaína e pólvora usada como estimulante por guerrilheiros africanos. O pesadelo (ou paranóia?) de Orlov – vivenciado pelos olhos bem abertos da câmera de Niccol – é captado em plano distanciado de cores frias, quando foge do perigo letal representado pelo vírus do HIV (prostitutas de luxo), por facções rivais a Baptiste e inclusive por uma matilha de hienas. Como um vampiro – condenado a vagar pelas trevas e se alimentar do sangue alheio – Orlov torna-se “imortal”.

Mas como as obras artísticas assumem relativa autonomia em relação às conjunturas materiais e ideológicas nas quais se inscrevem – não porque assim o queira (ou deixe de querer) a tradição marxista (ou qualquer outra) de crítica ou ensaísmo cultural, mas sim porque se cria uma realidade interdependente, com suas próprias tendências de movimento, que exige instrumentos de mediação específicos – deve-se sublinhar que o filme de Orlov contém in nuce os germes de sua própria superação. O diálogo final de Orlov e Valentine define cristalinamente o lugar que ocupam, ao lado dos Estados e da institucionalidade jurídico-política – os grandes traficantes internacionais de armas no sistema mundial capitalista. Ao final do filme, lê-se que os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas – Estados Unidos, Alemanha, França, Rússia e China – são também os maiores produtores de armas e que, por fim, o filme baseia-se em fatos reais. A História, afinal, abre o caminho.

NOTAS
(1) O título do filme – “Senhor das Armas” (“Lord of War”) – alude indiretamente ao conceito de “senhor-de-guerra” (“Warlord”). Trata-se de uma expressão, utilizada de forma pejorativa, para se referir àqueles que detém o controle político ipso facto sobre uma região sublevada pela força das armas. A designação remonta ao Japão do século XVI, dilacerado por contínuas guerras entre senhores rivais que – dotados de castelos, território, vassalos e exércitos próprios de Samurais – lutavam em plena sociedade feudal. Os imperadores alemães também se utilizavam da terminologia (“Kriegsherr”). Atualmente, a imprensa burguesa de países como EUA e Inglaterra utiliza-se amplamente do termo para legitimar as ofensivas militares de seus respectivos imperialismos sobre nações oprimidas de diversos rincões do globo.

 

FONTE: http://www.pstu.org.br/cultura_materia.asp?id=4335&ida=43 Acesso em 22/10/2009

 

O SENHOR DAS ARMAS: Por um mundo menos violento...

 

 

No início do filme, antes da apresentação dos créditos relativos à produção, o personagem central vivido por Nicolas Cage fala rapidamente sobre a relação entre homens e armas no complexo mundo em que vivemos. Concluindo sua fala ele nos diz que há aproximadamente uma arma para cada doze habitantes da Terra. O que poderia ser pensado como um prólogo que teria um fechamento pacifista é, na realidade, a oportunidade para que esse autêntico senhor da guerra termine se perguntando: "O que precisamos fazer para que as outras onze pessoas tenham armas?".

 

Baseado na vida de um contrabandista internacional de armas que abasteceu as principais guerras do planeta entre os anos 1980 e 1990, O Senhor das Armas, do diretor Andrew Niccol, repercutiu com grande destaque em virtude de sua temática tão polêmica e atual. Afinal de contas, como ficamos sabendo a partir do próprio filme, as balas fabricadas para utilização nas famosas armas automáticas AK-47, de origem russa, já vitimaram mais pessoas ao redor do globo do que as bombas atômicas lançadas sobre o Japão pelos norte-americanos na 2ª Guerra Mundial.

 

As duras lições que nos são dadas por esse filme começam de forma inesperada durante os letreiros iniciais. Nesses minutos já se conta uma história deveras interessante, a da fabricação, embalagem, venda, transporte e entrega de um dos mais cobiçados, caros e mortíferos produtos criados pela humanidade, as balas do referido fuzil AK-47. O problema é que o percurso didático que nos apresenta os caminhos percorridos por essa munição entre o seu fabricante e o comprador não acaba com o recebimento da encomenda. A verdade é que as balas chegam ao destinatário final que não é o comprador, mas a vítima desses invólucros metálicos recheados de pólvora e criados especificamente para anunciar a morte...

 

Não são apenas as armas russas que engrossam os índices de contrabando. Armas americanas e de outras origens também são muito cobiçadas e fazem com que a mortalidade seja muito maior do que deveria em países de todos os continentes, com especial destaque para a Ásia e a África, já atormentadas por suas mazelas sociais e injusta distribuição de renda.

 

A mortandade disparada através dessas automáticas e semi-automáticas não está, no entanto, apenas nesses confins. São as armas obtidas através dos contrabandistas que de certa forma avalizam os investimentos de outros setores ilegais que promovem muitas mortes e desgraças, como o mundo das drogas, a indústria mundial de seqüestros e mesmo a violência cotidiana verificada em assaltos, roubos, lutas de gangues e assassinatos triviais.

 

É ainda no início do filme que ficamos sabendo que há 550 milhões de armas espalhadas nos diversos países do planeta. Esse montante de recursos bélicos espalhados pelo mundo nos lega algumas dúvidas e reflexões:

 

- O que aconteceria se o dinheiro investido na fabricação dessas armas fosse destinado à ampliação dos estoques alimentares da Terra ou utilizado para a fabricação de medicamentos em larga escala para o abastecimento das áreas mais carentes do mundo?

 

- Se todos os dólares utilizados na produção e comercialização dessas armas fossem desviados para outras finalidades quantas vidas seriam salvas anualmente?

 

- Quanto se economizaria anualmente em custos hospitalares, seguros-saúde ou de vida e pensões governamentais utilizados nos tratamentos das vítimas não-fatais desses armamentos? Esse dinheiro não poderia melhorar e muito a educação, a saúde, a habitação, o saneamento básico, os transportes e tantos outros setores sociais carentes nos países mais pobres do mundo?

 

- As guerras mantidas à custa dessas armas e toda a destruição material dos países onde acontecem tem custos elevadíssimos. Sem todos esses detonadores de vidas e recursos materiais o que se poderia proporcionar às populações que vivem nessas localidades devastadas?

 

O mais importante, no entanto, é perceber que em pleno século XXI, mesmo depois de todas as lições que nos foram dadas ao longo da história, a morte ainda é encarada como um grande e promissor negócio capaz de movimentar bilhões de dólares e que, em virtude disso, continua acontecendo com enorme regularidade.

 

Quando iremos fazer as lições de casa e banir as armas de fogo? Em que momento de nossas existências iremos parar de nos matar em larga escala? Será que algum dia as lições de amor, solidariedade, paz e compreensão entre os homens serão verdadeiramente aprendidas?

 

 

O Filme

 

Yuri Orlov (Nicolas Cage) é um perdedor. Vive na sombra de sua família. Não conseguiu encontrar seu lugar no mundo. É totalmente desprezado pela mulher que ama. Tudo o que se refere a sua existência é desanimador e suas perspectivas futuras são tão desoladoras quanto tudo aquilo que ele já vivera. No entanto, há um ponto de virada em sua vida. E essa transformação não poderia ter um início mais estranho e assustador. Tudo se modifica a partir do momento em que Orlov presencia um assassinato e percebe que juntamente com o cheiro de pólvora que ficara no ar, misturado ao vermelho intenso do sangue e a morte dos que foram mortos, há grandes chances de se ganhar dinheiro...

 

As "verdinhas" poderiam sair de um mercado consumidor alternativo, formado por pessoas que precisam de novas armas e de munição para a realização de seus trabalhos de "limpeza" e "extermínio" de pragas indesejáveis.

 

Não importa a Orlov saber quem serão as vítimas dessa "necessária" dedetização. Basta a ele concluir que existem interessados, mercadorias e que, devido aos riscos desse potencial campo de trabalho, lucros imensos a obter.

 

A partir de então, Orlov entra aos poucos nos meandros de um mundo que é ao mesmo tempo muito excitante e realmente perigoso aos seus olhos. Suas vendas começam no mercado interno norte-americano como fornecedor do crime organizado ou de milícias particulares e acaba crescendo a ponto dele se tornar um "exportador" de armas.

 

Dos Estados Unidos o descendente de russos parte para empreitadas que o levam aos golpes militares das repúblicas bananeiras latino-americanas, as guerras civis africanas e aos violentos e prolongados conflitos religiosos do Oriente Médio. Em seus vários anos de contrabandista internacional de armas, Orlov descobre que aos grandes lucros há, em igual medida, enormes riscos.

 

Yuri também percebe que mesmo sendo vulnerável apesar de seus disfarces legais que tentam legitimar suas negociações, há espaço para desfrutar da riqueza que acumula para ter tudo o que sempre sonhou ao seu alcance, inclusive o amor da mulher por quem se apaixonara quando ainda era um fracassado...

 

O Senhor das Armas, a despeito da inerente violência de sua trama é um filme que pode se tornar um libelo em favor da paz. As mortes narradas nesse empolgante thriller, que tem como referência a história verdadeira de um contrabandista de armas, devem incentivar as pessoas a cobrar mais determinação dos governos em sua luta contra o comércio ilegal de armas e, principalmente, nos forçar a exigir de nossos líderes políticos um real compromisso de banimento das armas e da violência na Terra...

 

 

Para Refletir

 

1- O foco do filme na história de Yuri Orlov não nos permite, muitas vezes, perceber que nas linhas finais de O Senhor das Armas encontram-se os maiores vilões do comércio mundial de armas, os governos e empresas dos países mais ricos do planeta, que agindo de forma legalizada, distribuem porcentagens de armas muito maiores do que qualquer contrabandista individual. Se não bastasse isso, a corrupção, o descaso das autoridades e as arbitrariedades de muitos líderes em países mais pobres colocam a violência como moeda de troca em regimes autoritários, repressivos e totalmente corrompidos moralmente. Não há apenas uma bandeira a se levantar nessa luta contra as armas de fogo, ou melhor, não temos que nos mobilizar contrariamente ao contrabando, mas também às mortes promovidas pelo comércio legal desses armamentos e munições.

 

2- E o que podemos fazer? Que tal começar com pesquisas sobre países que permitem e que não permitem a venda de armas e munições para suas populações. Passamos por um referendo acerca dessa temática no Brasil no ano de 2005 e a população, influenciadíssima pela mídia, manteve o direito de comercialização livre de armas no país. E em outros países, como isso funciona? São maiores ou menores os índices de mortalidade pelo uso de armas de fogo? Criem tabelas, quadros, painéis, blogs, artigos e outras formas de expressão para estimular o debate na comunidade.

 

3- Outro ponto de interesse desse filme é a questão das guerras. Quais são as guerras em vigor no planeta atualmente? O que motiva sua existência? Quais as conseqüências desses conflitos (mortes, destruição, paralisia da economia,...)? Que tal mapear os conflitos e criar um enorme Atlas que apresente os dados sobre esses dramas vividos alhures?

 

4- Uma atividade que pode ajudar muito a compreender os impactos relacionados à venda de armas no mundo consiste em se apropriar dos instrumentos da matemática e converter os dados relativos aos prejuízos em dólares. Depois que isso for feito promova a produção de gráficos em diferentes formatos com informações sobre mortalidade provocada por armas, prejuízos dos governos, custos hospitalares e perdas humanas. Feito isso, transforme esses números em habitação popular, investimentos em saúde, construção de escolas,...

 

 

FONTE: http://www.planetaeducacao.com.br/novo/artigo.asp?artigo=546 Acesso em 22/10/2009